27 Noites (Netflix): quando a técnica falha e o cuidado vira controle
O filme 27 Noites não é apenas uma obra sobre saúde mental ou velhice. Ele é, sobretudo, um retrato incômodo de como instituições, famílias e saberes técnicos podem se articular para silenciar sujeitos, mesmo quando o discurso é de cuidado e proteção.
Sob a lente do Serviço Social, o que se vê é um campo fértil para reflexão ética, política e profissional.
A personagem Martha — a senhora internada — representa algo muito maior do que um caso individual. Ela encarna a velhice que não aceita ser dócil, controlada ou previsível. Sua autonomia incomoda. Seu modo de viver escapa às normas. E, por isso, passa a ser tratado como problema. O filme expõe com clareza um processo conhecido na prática profissional: a patologização da diferença.
Quando o comportamento não se ajusta ao esperado socialmente, a resposta institucional costuma ser rápida: diagnóstico, internação, afastamento da vida social. Pouco se escuta. Pouco se dialoga. Decide-se sobre a pessoa, raramente com ela.
As filhas surgem como figuras centrais desse conflito. Elas não são vilãs caricatas, mas também não são apenas cuidadoras. O que o filme revela é a ambiguidade do cuidado familiar quando atravessado por medo social, conveniência, interesses e cansaço. A decisão pela internação aparece como solução prática para um “incômodo”, ainda que isso custe a liberdade e a dignidade da mãe.
Para o Serviço Social, essa dinâmica é conhecida: o cuidado pode, sim, se transformar em controle social, especialmente quando respaldado por discursos técnicos e médicos.
É nesse ponto que entra o papel do perito — talvez o elemento mais sensível do filme. A perícia é apresentada como instância decisória, aquela que valida ou invalida a liberdade de Martha. E aqui reside uma crítica fundamental: a falsa ideia de neutralidade técnica.
Laudos não nascem no vazio. São produzidos em instituições pressionadas por prazos, protocolos e expectativas sociais. Quando a perícia se limita à técnica descolada da ética e da escuta, ela deixa de proteger direitos e passa a legitimar violências institucionais. O filme mostra como uma decisão “técnica” pode ter efeitos devastadores e irreversíveis na vida de alguém.
O sofrimento da senhora não se encerra na internação. Ele se prolonga na negação da sua narrativa, na desqualificação de sua voz e na perda de sentido da própria existência. As filhas, por sua vez, também carregam consequências: vínculos fragilizados, culpas silenciadas e uma relação mediada por decisões que nunca foram realmente discutidas.
27 Noites nos lembra que institucionalizar é sempre uma decisão extrema, e nunca neutra. Para o Serviço Social, o filme reforça a urgência de práticas comprometidas com:
– escuta qualificada
– defesa da autonomia
– análise crítica da família como espaço de cuidado e de poder
– questionamento dos saberes técnicos quando estes produzem exclusão
Mais do que entretenimento, a obra é um convite à reflexão profissional. Ela nos provoca a perguntar:
quem está sendo protegido quando a liberdade é retirada?
E, principalmente, quem está sendo silenciado em nome do cuidado?
Entre linhas, o filme revela aquilo que o Serviço Social insiste em afirmar: técnica sem ética não cuida — organiza o abandono.

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